No dia 28 de junho de 1969, a polícia de Nova York invadiu o bar Stonewall Inn, frequentado por pessoas LGBT. O ato violento e injustificado estimulou reação e os protestos que surgiram em seguida se tornaram a semente de movimentos pela luta por igualdade de direitos individuais nos Estados Unidos e, posteriormente, mundo afora. Esta é a origem do Dia Internacional do Orgulho LGBT. Para comemorar a data, vamos destacar o trabalho de artistas de nosso catálogo que afirmam a sua sexualidade e o seu lugar no mundo com coragem, poesia e música.

 

Há mais ou menos um ano, Maria Beraldo abalou as estruturas com o lançamento de Cavala, seu primeiro álbum solo e autoral. Em meio ao repertório, a artista apresenta a sua maneira de interpretar o mundo, naturaliza o contraditório e escancara processos de autoconhecimento. Os anseios, desejos, as histórias, as angústias e as paixões de uma mulher lésbica – mas que gosta de ter “homens ao alcance da boca” – vão se desdobrando com a potência de um grito. Com uma estética singular e inovadora, a obra de Maria Beraldo borra as fronteiras entre amor e política, ternura e força, intimidade e estranhamento. Sua poética é direta até para abordar as ambiguidades que se apresentam no mundo. Há delicadeza, mas não há meias palavras. Ao contrário, cada uma delas assume diversos significados, a começar pelo título do disco. Indomável.

 

Ano passado, o anúncio do namoro da percussionista Lan Lanh com a atriz Nanda Costa (ambas compositoras) gerou grande repercussão nas redes sociais e na imprensa. Para agradecer as manifestações de apoio e combater o preconceito, elas publicaram no Instagram um trecho da então recém-criada composição “Não É Comum Mas É Normal”. A música rapidamente se tornou um ícone de afirmação da causa LGBTQI+ e, a pedidos do público, as duas artistas resolveram lançá-la como single. Canção-manifesto, a composição de Lan Lanh e Nanda Costa é uma resposta contra o preconceito, mas também está ligada a outras questões, como auto-estima, relacionamento e feminismo. “Não É Comum Mas É Normal” foi lançada em 2018 justamente no dia 28 de Junho, Dia Internacional do Orgulho LGBT.

 

A obra de Arthur Nogueira ressalta que, na tradição da música brasileira, a poesia é pop. Pelas mãos do cantor e compositor, o exercício íntimo de interpretar as próprias emoções diante do mundo ganha ritmos, melodias, texturas e cores capazes de despertar o interesse de muitos. O orgulho de mostrar quem é, em toda a sua complexidade, de um jeito que todos possam compreender e se aproximar. Arthur Nogueira sempre se conectou ao melhor da tradição poética na canção brasileira. O seu repertório em disco inclui músicas/poemas de Wally Salomão, Jards Macalé, Cazuza, Renato Russo, Cassia Eller, Eucanaã Ferraz, Marina Lima e, mais frequentemente, Antonio Cicero, com quem Nogueira desenvolve uma já extensa parceria. Dentre as composições com Cicero, estão o clássico contemporâneo “Sem Medo Nem Esperança” – sucesso também na voz de Gal Costa – e “Antigo Verão (Embarque para Citera)”. Esta última é faixa do disco “Presente (Antonio Cicero 70)”, produzido pelo selo Joia Moderna, e que conta também com o hit “Último Romântico”, parceria do poeta e compositor homenageado com Sergio Souza e Lulu Santos. O clipe desta música diz muito sobre como Arthur Nogueira aborda a causa LGBTQI+ também em sua obra autoral: de forma poética e pop, está tudo ali naturalmente, como deve ser.

 

Quem ouve As Bahia e a Cozinha Mineira pela primeira vez não precisa saber nada sobre a banda para perceber que está diante de uma proposta estética ousada e original. Não precisa saber que seus três integrantes se conheceram enquanto cursavam História na Universidade de São Paulo; que começaram a tocar juntos em homenagem a Amy Winehouse no ano em que a cantora faleceu; ou que têm em Gal Costa sua principal influência. É possível ainda se sentir instigando pelo estilo potente e visceral das canções sem saber, por exemplo, que as frontwomen da banda são mulheres trans. Mas isso, nem de longe, é algo que Assucena Assucena e Raquel Virginia estejam dispostas a esconder. Ao lado de Rafael Acerbi, elas sempre afirmaram a dimensão social e política da música que fazem, e são hoje vozes das mais inspiradoras na luta pela causa LGBTQI+ no Brasil. Visibilidade conquistada com o talento e a coragem de revelar artisticamente o que são e como enxergam o mundo. Pop, samba, rock, ciranda, festa, protesto, reflexão, denúncia, humor, romance… Por saberem que o melhor jeito de descobrir é experimentando, As Bahias e a Cozinha Mineira seguem com sua “música progressiva brasileira”, que vem resultando em sabor forte e marcante, mas extremamente bem equilibrado. É a articulação entre os elementos (sempre em transformação) que fazem de nossa música referência de modernidade nos quatro cantos do mundo e mensagens poderosas em favor da representatividade das pessoas trans, da luta por direitos e do combate ao preconceito. Quem ouve As Bahias e a Cozinha Mineira pela primeira vez deveria saber que está diante de algo que vai além de uma proposta estética ousada e original.